O sentido das palavras

Filhota, hoje passamos o dia em casa, enquanto eu e seu pai trabalhávamos, você fazia da cama do Maurice um pula-pula, se agarrava na minha perna enquanto eu andava pela casa, pedia colo, pedia pra ver filme, pra ver teatro, pra desenhar junto, pra chupar pirulito, pra tomar banho, pra não tomar banho, pra passear no parque, pra não passear no parque, e além disso, não queria trocar fralda, não queria vestir roupa, dizendo “tô peladona mamãe!” e saindo correndo assim pela casa, como você bem gosta.

Foi um dia ótimo, pois fizemos uma reunião sobre que rumo tomar nessa segunda semana de ensaios, e rimos bastante com você em um momento em que olhou pra foto do Shakespeare (que normalmente você chama Pêps) e disse: Rogério. Não faço ideia de onde você tirou que Shakespeare é Rogério… Rsrsr…

Relatar isso agora, me fez lembrar de uma conversa que tive com Maurice à caminho do teatro, sobre o facebook. Ele comentou comigo, lamentando, que as pessoas estão se esquecendo do verdadeiro sentido das palavras, usando as palavras de qualquer forma, por exemplo, ele disse: eu não vou adicionar uma pessoa como meu amigo no face, se ela não for de fato minha amiga, não é porque eu conheço alguém e tenho uma boa relação, que isso faz dessa pessoa minha amiga… Eu concordo com o Maurice, – eu não tenho facebook, também não sou contra quem tem, e não tenho nenhuma opinião formada sobre o assunto, simplesmente tenho preguiça, por isso não tenho… – acho que falamos muitas coisas sem pensar no nosso dia-a-dia, e ao ler Shakespeare, não me parece que palavras foram jogadas ali, aleatoriamente, embora possa parecer à primeira vista uma leitura rebuscada, elas são bem escolhidas pra comunicar o que ele quer, não me parece sobrar palavras na obra.

Tem sido muito bom ler A Tempestade e sempre estar se perguntando o porquê de uma cena estar ali, do porquê de uma palavra aparecer num lugar aparentemente estranho, e aos poucos ir descobrindo novas camadas do texto, muitas vezes históricas e que dizem respeito àquela época. Quando estava improvisando a cena em que Miranda e Ferdinand ficam maravilhados um pelo outro, Maurice me dizia: “essa paixão é física. Quando eles falam que querem se casar, o público já entendia, naquela época, que isso era o desejo físico de ter o outro.”

A cada dia me apaixono mais por essa obra, e essa cena, particularmente, é muito linda, pois Miranda está descobrindo sua sexualidade, um sentimento muito puro por Ferdinand, e embora ela nunca tenha amado, seu corpo todo fala, quer estar com ele, é uma atração irrepreensível.

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3 comentários sobre “O sentido das palavras

  1. Maravilha, Paulinha… Lembrei de uma entrevista com o sociólogo Zygmunt Bauman, que ele fala justamente sobre a “amizade facebook”. Deixo aqui o link desse trecho pra você ver:

    Pensar que cada palavra é um signo, uma flecha, que vem carregada de sentidos, imagens, emoções é imprescindível, não é?… Elas não podem sair “da boca pra fora”… E Shakespeare nos ensina isso magistralmente. Lindo trabalho, querida. Estou aqui, acompanhando tudo com muito carinho. Gratidão.

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