11: Space: the final frontier

Continuando com o esquema que devemos manter até o fim da nossa estadia por aqui, chegamos uma hora depois que o Maurice e a tua mãe. O problema foi que, quando estávamos saindo de casa, a tua mãe me liga avisando que havia um problema – aparentemente de greve – dos ônibus no Château de Vincennes e, por conta disso, teríamos que seguir de lá à pé até a Cartoucherie. Chegando do metrô, de fato tudo estava um caos: muitos ônibus parados, enfileirados, e uma multidão por todo os lados! Seguimos a pé. A caminhada nem é tão longa assim, mas dois obstáculos teriam de ser superados: a chuva que começava a cair, e uma criança, que, com certeza, ao chegarmos no Parc Floral – que corta caminho, ao menos no caminho mais próximo que eu conheço –, iria querer descer do carrinho e, pra voltar, seria uma luta. Dito e feito. Passeamos pelo Parc Floral debaixo de uma garoa chata e fria, mas não deixou de ser um passeio gostoso, vendo você correr, tirando umas boas fotos, etc. –, mas ao chegarmos do outro lado, o convencimento pra você voltar não foi dos mais fáceis.

Chegando na Cartoucherie, encontramos o Maurice na frente do Soleil, conversamos rapidamente com ele e seguimos pro L‘Épée. Na nossa sala de trabalho, o piso estava demarcado com fita crepe, conforme eu e o Maurice conversamos na noite anterior: um corredor ou, como o Maurice prefere chamar, um espaço bifrontal. Ficou muito interessante, parecia um pequeno espaço do Les Éphémères, ainda mais pela cortina que ficava ao fundo, em um dos lados. Quando o Maurice chegou, rapidamente organizamos tudo para que eles passassem pra mim o que tinham trabalhado até então.

Aliás, antes de seguir relatando o trabalho, acho que é importante falar sobre a tua reação ao novo espaço. Não sei se por estar acostumada com o Abrazo, que tem a demarcação no chão de fita, ou simplesmente pela convenção estar mais clara, você foi impecável no respeito ao espaço cênico hoje, Bela! Logicamente que nos testou o tempo inteiro, como tem feito com tudo. Andou pela fita, para saber se o limite era “até a fita” ou “antes da fita”, jogou brinquedos pra área cênica, mas o fato é que, apesar disso tudo, não desrespeitou o nosso acordo. Très bien!

Bom, então eles me passaram o que tinham trabalhado. A ver:

  1. Paula indo e voltando, como Paula, mesmo, como se estivesse conversando com outra pessoa. O assunto era banal, sobre o dia de hoje, a greve dos ônibus, a sua nebulização, etc.
  2. A mesma coisa, porém agora já se tratava de uma personagem – mais ou menos a Jovelina, não era muito claro –, que trazia uma criança pela mão, conversando com ela.
  3. Continuando com a criança, porém agora, do outro lado, estava o marido/pai também, e a conversa se revezava de um lado para o outro.
  4. Somente com a criança de novo, e agora elas estavam atrasadas, tinham que correr pra chegar a tempo.
  5. Por fim, ele colocou uma espécie de banco/mesinha giratório que temos à mão nesses últimos ensaios, e a cena era uma mulher – acho que a própria Paula – ao telefone, tentando ligar pra algumas pessoas e não conseguindo, e por fim deixando mensagens de algo grave que estava acontecendo. Essa ação acontecia atravessando o palco e sentando nesse banco, e nele ela ficava lentamente girando, como as plataformas do Les Éphémères.

Nessas últimas improvisações, desde que a criança entrou na parada, foi muito curioso com você ficou muito atenta ao que estava acontecendo. Em alguns momentos queria falar, até que nesse último, da corrida, você quase correu junto com a cena, foi muito bonitinho. Lembrei do Peter Brook, que sempre leva seus espetáculos antes de estrear pra escolas, para avalia-lo diante do olhar das crianças. No seu caso, que já é muito acostumada com teatro, acho que a boa e velha identificação aristotélica foi o que falou mais alto!

Trocamos meia dúzia de palavras e seguimos na experimentação. O Maurice quis deixar claro que não se tratava de um trabalho de personagem ou situação – por mais que elas não estivessem completamente esquecidas –, mas sim de uma exploração técnica dessa configuração espacial.

A cena seguinte aconteceu com o Maurice também “em cena”. Ele fazia um “Ariel”, e agora preciso parar pra falar um pouco sobre isso, pois já estamos comentando sobre há um tempão, mas eu não me toquei de escrever aqui. O Maurice pensa em utilizarmos alguns (dois ou três) contra-regras, mais ou menos no esquema que o Soleil usa. Na realidade, seriam coringas que ajudariam a cena em diversas formas. O Soleil se inspira nos manipuladores do bunraku, teatro de animação japonês, que trabalha com bonecos grandes manipulados por três atores todos vestidos de preto, inclusive capuz. Eles usaram isso no Les Éphémères à exaustão, já que a peça se passava praticamente toda sobre plataformas com rodinhas que atravessavam o palco girando lentamente, manipuladas justamente por esses atores. No Macbeth, eles voltam a usar isso, mas com menos intensidade. Então a nossa ideia é de ser um espetáculo “solo” com três ou quatro pessoas em cena. Como se trata de uma primeira ideia, não acho que valha a pena dedicar mais argumentação pra isso por enquanto.

Bom, a improvisação, então, era da Paula pondo a mesa, enquanto o Maurice manipulava a mesa pelo espaço, lentamente, girando, deslocando, e a Paula deveria se comportar como se a mesa estivesse parada.

Isso me lembrou um workshop que os meninos prepararam no processo de Nuestra Senhora de las Nuvens, que funcionava exatamente assim: Um dos atores entrava e ia se sentando no vazio; enquanto isso, um contra-regra trazia a cadeira e colocava atrás dele exatamente no momento antes dele cair. Em seguida, ele apoiava os cotovelos numa mesa imaginária, e a mesa real surgia, trazida pelos contra-regras, no justo momento. E assim por diante. Fiquei pensando que uma associação das duas coisa poderia ser legal.

A experimentação seguinte foi colocar a nossa caixa de som Jambox no bolso da Paula, e fazer ela ir andando pelo espaço, enquanto o som transmitia uma entrevista do Manuel, esposo da Jovelina. Depois, o Maurice entrou em cena, como se fosse o entrevistador.

E assim seguimos testando possibilidades espaciais. O Maurice teve que ir embora um pouquinho mais cedo, por ter uma reunião no Soleil, então nós ficamos praticamente a última hora experimentando tecnicamente essas questões propostas por ele.

Na volta, o ônibus já tava passando. Em casa, descobri que não foi exatamente isso. Uma linha do RER que passa pelo Château estava em greve. Isso fez com que os motoristas de ônibus entrassem em operação tartaruga. Então, os ônibus não deixaram de funcionar, mas ficaram muito mais lentos e morosos.

Acho que uma coisa bacana do trabalho de hoje, além do próprio espaço em si, que é um alicerce concreto pra cena, foi ver que o que parecia ser mais dificultador, que é uma só atriz , pode vir a ser o lugar da criação e da inventividade, com as possibilidades de coloca-la em contracena com o nada, sem que isso nos incomode, ou seja, que nós consigamos ver o interlocutor. Pelo pouco que exploramos hoje, acho que vai dar bem certo!

E amanhã começamos a experimentar essa configuração espacial com a situação da Jovelina, etc.

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