02: O sol há de brilhar mais uma vez…

Belinha, começamos! Um ou dois dias antes do previsto, já que o Maurice antecipou a volta das férias por causa da Marche Républiquene, hoje tivemos o nosso primeiro dia de trabalho. Como o Épée du Bois só ficará disponível para nós na próxima semana, o Maurice conseguiu a sala de ensaios do Soleil, acredita? Hoje e amanhã trabalhamos lá. Mais simbólico e especial para um marco inaugural do trabalho, impossível.

O dia começou nublado mas, no caminho para a Cartoucherie, o céu abriu e o sol brilhou! De fato, o “Teatro do Sol”, como você chama, nos presenteou com um dia lindo pro marco inaugural do trabalho. Chegamos um pouco depois das 11h e fomos ao Théâtre du Soleil. Lá, enquanto o Maurice procurava as chaves da sala de ensaio, que fica num outro galpão da Cartoucherie, nós fomos chegando, reencontrando aquele espaço mágico, conhecendo as pessoas. O Soleil tá lindo pro Macbeth: um grande retrato do Shakespeare na parede de fundo do espaço, e nas paredes laterais reproduções de cartazes de Macbeths de diversos lugares do mundo. Foi impossível evitar a emoção de retornar àquele lugar mais uma vez. Me dei conta de novo de como o teatro é o espaço do sagrado, é o meu espaço de equilíbrio espiritual. Aquele lugar é um templo, de fato. Bom, e como não poderia deixar de ser, você foi destilando o seu charme pelos integrantes do Soleil, né?

Saímos de lá e fomos à sala de ensaio. É um espaço incrível! O que eles usam pra ensaiar, é um espaço de dar inveja a boa parte dos grupos do planeta. Além dos galpões que eu já conhecia, com o teatro em si, o foyer/restaurante e uma espécie de depósito e administração, eles ainda têm mais um atelier de cenografia anexo, e esses dois espaços que conhecemos hoje: a incrível sala de ensaios, e um enorme atelier de figurinos, com uma área específica para máscaras e adereços também. Bom, nada que eles não mereçam, certo?

O Maurice montou um pequeno santuário, formado por uma imagem de Ganesh – o deus do hinduísmo que é conhecido por destruir os obstáculos – de um lado e Shakespeare do outro, um colar de Oxóssi, o orixá da floresta, em volta, e uma maçã com um incenso. Ele pediu que nós fôssemos contribuindo para esse santuário do nosso trabalho também.

Almoçamos o sanduíche que compramos no caminho, e fomos ao trabalho. Deixamos o todos os seus brinquedos num cantinho, atrás da arquibancada e, antes da cena em si, reforçamos que acima de tudo o desejo por trocar e por explorar conhecimentos e possibilidades criativas estavam à frente de qualquer outra coisa no trabalho. Reforçado o pacto, fomos ao ensaio.

O Maurice propôs que pegássemos a cena 2 do primeiro ato, possivelmente a cena mais simbólica da Miranda e, principalmente, da sua relação com o Próspero. É quando ela, assustada com a tempestade que o pai causou, pede que ele pare e ele conta toda a história do exílio deles, quando ela era pequena.

Com a tradução da Bárbara Heliodora em mãos (e o Maurice com uma versão francesa), além do original, logicamente, começamos com a Paulinha sentada numa cadeira, lendo a fala da Miranda. Eu sentei em outra cadeira, meio no limite entre a cena e a plateia, lendo as falas do Próspero. Conversamos muito sobre os estados que conduzem a cena, e sobre seus leimotifs. Nos chamou atenção que a Miranda parece não ter interesse em saber sobre a sua origem, e isso fica ainda mais curioso no fato de que o Próspero, ao contar a história, insiste o tempo inteiro em mantê-la deseperta, sempre pergunta se ela está ouvindo e acompanhando.

Um aspecto que me chamou atenção foi que, diferente das outras traduções que conheço da Bárbara (e da sua mãe), particularmente não gostei dessa. Acho que o texto não desliza tão redondo na boca do ator (da atriz, no caso), e ela parece ficar presa em algumas arapucas da tradução. Com isso, decidi experimentar traduzir eu o texto, assim como fiz com o Medida por Medida.

Em seguida, o Maurice foi pedindo para sua mãe começar a ler o texto em cena, da forma como o Soleil costuma trabalhar (e que já tínhamos trabalhado em Natal com ele): lê uma frase e repete no espaço. Fomos indicando algumas questões, até que o Maurice teve uma excelente sacada: resolveu construir uma cama improvisada, e pedir pra Paula fazer a Miranda sonhando com a tempestade, e acordar no susto, ainda meio dormindo, conversando com o pai. Isso justificaria a preocupação do Próspero em mantê-la acordada, além de gerar possibilidades cênicas muito interessantes! Por mais que, nesse primeiro momento, não estejamos ansiosos em colocar a questão do exílio na mesa, foi impossível não associar isso aos relatos que andei lendo e ouvindo, que em geral dizem que, nas casas dos exilados, não se falava no exílio, nos motivos da partida. Era uma espécie de tabu, parte por proteção às crianças, parte pela tentativa de se estabelecer uma rotina minimamente normal. Essa pode ser uma boa chave para nós.

Enquanto isso, você brincava, com muito sono também (!!!) e insistia em ir ao encontro com a tua mãe. Estabelecemos a primeira regra do trabalho, que é a que você não pode ultrapassar o limite da área cênica! Rsrs… Você sofreu um pouco com isso mas sobreviveu, e se comportou bem, dentro do possível. O Maurice foi muito sábio também em respeitar o teu ritmo pro trabalho, e acho que conseguimos fazer isso muito bem.

Bom, de volta ao trabalho, avançamos muito na compreensão e exploração da cena assim. O Maurice então foi para o palco, e representou o Próspero, pra que a tua mãe tivesse uma referência concreta de contracena, diferente do imaginário com a voz em off como estava até então. E funcionou muito bem.

Com isso, finalizamos o primeiro dia de trabalho. Que delícia estar em sala sem compromisso, explorando, pesquisando, conhecendo, aprendendo! Nossa, saímos muito animados e tomamos um vinho à noite pra comemorar o début do trabalho. Simbora!!!!!!

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2 comentários sobre “02: O sol há de brilhar mais uma vez…

  1. Tive um choro engasgado neste post. Estranho.
    Acho que afetada por este trecho “foi impossível não associar isso aos relatos que andei lendo e ouvindo, que em geral dizem que, nas casas dos exilados, não se falava no exílio, nos motivos da partida. Era uma espécie de tabu, parte por proteção às crianças, parte pela tentativa de se estabelecer uma rotina minimamente normal.” Enquanto conversava com minha mãe nestas férias, ela disse “nós disfarçamos tudo pra vocês o máximo que conseguíamos”. E sim, metendo o bedelho, como sempre faço, rs, acho que essa pode ser uma boa chave para vocês. Como lidar com o não dito, em cena. bjs

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    1. Pois é, Vanina, seus bedelhos são sempre bem-vindos, desde que você me proibiu de pôr uma cena no Capitão! Rsrs… Hoje, sendo pai, entendo exatamente o que o Próspero, os seus pais e todos os pais exilados fizeram. O instinto da proteção grita, e ficamos sempre divididos entre formar e mostrar o mundo como ele é, e de outro lado a necessidade de proteger de tudo e de todos. Equação delicada…

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