Nossas anotações

Bela, eu tenho tentado escrever sobre os ensaios todos os dias, e tenho conseguido fazer isso no meu caderninho de ensaio, anotando informações soltas, ideias, coisas que preciso fazer. E ele tem sido fundamental pra mim, porque nem sempre consigo lembrar de todas as indicações dadas nos dias seguintes.

Já com relação ao blog, nem sempre consigo organizar as ideias e escrever, pois como você não está indo pra escola nesse período, nós passamos os nossos dias juntos, e você exige nossa atenção cada vez mais, principalmente pelo fato de estar convivendo pouco com outras crianças. Então, dentro do possível, nós estamos nos dividindo entre você, o ensaio, o trabalho em casa, as leituras… e assim por diante. Você dá trabalho, mas também tem sido muito paciente conosco pro que se espera de uma criança da sua idade, e essa residência não seria tão gostosa se você não estivesse conosco. Obrigada, amor. Ah! E você também tem seu caderninho, em que quase todos os dias você desenha bolinhas. Algumas delas você diz que são o “petaco” que você vê nos ensaios. Não sei dizer o porque, filha, mas você só desenha bolinhas por enquanto, e faz umas composições lindas, inclusive.

Sistema Solar Bela

Continuando, hoje optei por dormir menos pra poder escrever esse post, pois me sinto em dívida com o trabalho quando não escrevo, já que esse espaço me ajuda a visualizar melhor as ideias e permitem que elas estejam mais presentes na minha memória, assim como permite o diálogo com quem quiser colaborar. Assim, escrevo de Firenze, mas ainda pra relatar sobre o nosso trabalho em Paris.

Umas das coisas preciosas desse processo que quero guardar, foram as minhas idas e vindas com os meus diretores. Explicando melhor, vários dias eu fui pro trabalho junto com o Maurice. Já Fernando e você seguiam um pouco depois pro teatro, então no caminho pra Cartucherrie, Maurice ia falando sobre o trabalho, me dando indicações e contando histórias sobre o teatro. Já na volta pra casa, Maurice geralmente ficava na Cartucherrie e eu, você e seu pai seguíamos, e assim, Fernando ia me dando indicações durante todo o caminho de volta, sobre o trabalho. Uma quantidade de informações imensas, que claro, que eu não dava conta de todas, mas que de jeito nenhum me cansavam, pelo contrário, me faziam sentir cada vez mais privilegiada por estar nessa situação, de dois pra um. Usualmente, Maurice me falava de coisas que ele achava que me ajudariam a construir a cena, e Fernando sobre os meu vícios de atriz que ele tão bem conhece, e sobre a continuidade da nossa residência.

Desse modo, filha, considero que meu ensaio começava quando eu abria a porta de casa e terminava quando fechava na volta. Mas o processo, esse parece que uma vez iniciado, tem nos acompanhado por todos os lugares e deixa a nossa imaginação mais aguçada, o que é maravilhoso, pois esse ofício de observar à vida permite que a gente aprenda e aos poucos nos tornemos pessoas melhores.

E por falar em aprendizado, quero compartilhar aqui algumas questões que tem sido apontadas pelos meus diretores.

  • Ao improvisar algumas cenas eu recebia a seguinte orientação: não tenha pressa, dê o tempo necessário pra viver verdadeiramente a situação da personagem. E essa orientação já me colocava sempre em outro lugar com relação ao exercício, primeiro porque ela é generosa com quem está criando, e segundo por permitir procurar caminhos, sem insistir apressadamente numa ideia que não traz a verdade da cena e da personagem. Isso não significa ficar imóvel, ou não apresentar ideias que possam sem descartadas, mas sim investigar com ações concretas, objetivas, a situação da personagem, mesmo que eu só viva alguns instantes verdadeiros na cena. Mas é desses instantes que eu vou preenchendo a minha criação.
  • Outra informação interessante, aconteceu no último ensaio. Ao refazer uma cena da Miranda, eu não conseguia resgatar o estado da personagem e isso eu senti no primeiro instante em que entrei em cena. Mas não quis parar, e passei a cena inteira tentando resgatar o estado, e achando que estava conseguindo “enganar” Fernando e Carol que estavam de fora, assistindo. Claro que ao terminar, uma das primeiras coisas apontadas por Fernando foi: “você não estava no estado da personagem”. E em seguida, Maurice disse: “quando você sentir que não está com o estado, pare a cena. Nesse trabalho, como são muitas as informações, é necessário você retomar as anotações, ver os vídeos antes de fazer a cena”.
  • Tem também esse jeito de trabalhar o texto que Maurice me apresentou, de ir dizendo o texto com um ponto, e ir fazendo a cena, pois permite que o texto vá se revelando e eu possa ir vivendo e descobrindo as possibilidades que ele apresenta. É um jeito diferente do que eu estava acostumada a trabalhar, mas que apresenta caminhos muito interessantes pra construção do sentido do que está sendo dito.

Bem, é isso por enquanto. Me sinto muito privilegiada de estar vivendo esse universo tão contagiante da Cartucherrie e principalmente, do Soleil, e também por ter dois diretores tão generosos e inspiradores!

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13 comentários sobre “Nossas anotações

  1. Paulinha!!! Que lindo relato. Que saudade de vocês… Foi ótimo ter lido isso hoje porque ontem, no trabalho de mesa com Babaya – sim, ela está aqui trabalhando com o Dois Amores e eu estou acompanhando – ela falou exatamente sobre o tempo. Sim, ele mesmo, a quem costumamos atropelar tanto pela velocidade e urgência do nosso cotidiano. Baba pediu para os meninos lerem o texto danto o tempo de cada palavra, sem pressa; o tempo da frase, do texto. E nesses tempos de silêncio/escuta/respiração/fala, era revelado para nós, espectadores, a intenção existente no texto. Apesar de parecer óbvio, foi revelador. É maravilhoso que o teatro nos permita dominar esse tempo.
    Beijo pra vocês e pra France! rsrsrs

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    1. Estava pensando esse dia naquela questão óbvia, mas que se faz muito perceptível quando se está em cena, de que o teatro é a arte do tempo presente. Mais do que o espetáculo em si, a atuação especificamente demanda do ator que esteja totalmente presente no tempo e ação que estão sendo realizados. Nesse começo de ano percebi o quanto atuar – coisa que faz acho que mais de dois anos que não faço – é realmente uma necessidade para mim. Nada relacionado ao teatro-como-terapia, mas acho que ao atuar, eu consigo perceber melhor o meu tempo presente e harmonizar as minhas energias, de modo que não fique preso ou no passado ou no futuro (coisa que esse ano particularmente me fez experienciar nesse comecinho).
      De modo que convidei a Juba a começar um processo comigo, ela me dirigindo e eu atuando. Sem pretensão de constituir necessariamente um espetáculo, ou sequer uma cena curta, mas pelo simples fato de voltar a me exercitar nessa função. Vamos dar tempo ao tempo, e ver no que é que vai dar. Beijos em todos.

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  2. Muito massa, Paulinha! Essa convivência intensa com os diretores vai abrindo e fechando as portas e gavetas do nosso processo criativo. No fim, vc vai ver que vai ter uma linda cristaleira. Ah! Adorei as bolinhas de Belinha! A bolinha de Belinha, Belinha!!! Só saudades…

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  3. Ehh, Paulinha! Que maravilha ler este seu relato. Durante a montagem de Nuestra Senhora, a gente foi se tornando meio cúmplice quando percebeu que as pauladas que não eram dadas em um, eram no outro. E isso, pra mim, foi um presente que eu prezo demais hoje, viu? Obviamente, a minha vida era te provocar com a antecipação deste seu processo aí com dois diretores, sem ninguém para dividir essas novas bordoadas. Mas a verdade, que sabemos bem, e que apenas escrevo aqui para confirmar as suas palavras, é o quão privilegiada você está sendo por estar nesta posição. Passei a conhecer bem a forma como você encara esses momentos e esses direcionamentos. Sobretudo aberta!! Positiva!! E com bom humor!! E é muito bom saber que você está tomando o melhor proveito possível deles, quando diz que “de jeito nenhum me cansavam, pelo contrário, me faziam sentir cada vez mais privilegiada por estar nessa situação”, e ainda finaliza com “o processo, esse parece que uma vez iniciado, tem nos acompanhado por todos os lugares e deixa a nossa imaginação mais aguçada, o que é maravilhoso, pois esse ofício de observar à vida permite que a gente aprenda e aos poucos nos tornemos pessoas melhores”. Putz!!!?? PARABÉNS!! É nóis, Paula!!! Beijão.

    P.S.1: Imaginei agora que seria maravilhoso para Camille, passar por um momento desses também.

    P.S.2: Que ótima novidade Diogo!!! Pois que dê tempo ao seu tempo e nos presenteie com o tempo para vê-lo atuar!!!! Valeu!!! Grande abraço!!!

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