24: Arqueologia do texto

Filha, antes de irmos pro trabalho de hoje, algumas informações sobre o blog. A primeira é que resolvi fazer (o que entendi como) justiça aos títulos dos posts. Eu estava numerando apenas as sessões práticas de trabalho, mas hoje, como tivemos uma sessão prática, mas de mesa, entendi que deveria numerar todas as sessões de trabalho, sejam práticas ou de mesa, ou mesmo os dias de oficina da Francesca. A outra coisa é que estamos nos aproximando das 3.000 visualizações e 500 visitantes, de 13 países, o que é um número incrível!!! Jamais imaginei que poderíamos falar pra tanta gente. É muito gostoso como quase todo dia algum amigo me manda uma mensagem dizendo que está lendo, está acompanhando. Falta só termos mais comentários, né?

Bom, o trabalho começou pela manhã, às 11h, com uma aula da Francesca com a tua mãe. Não fomos, ficamos curtindo a cama juntinhos e, principalmente, deixando a tua mãe se concentrar o quanto precisava pra aula! O relato da Paulinha é só maravilhas, afinal, o privilégio de ter uma aula particular com a Francesca, na casa dela, não é pra qualquer um!

Quando a tua mãe voltou, fomos fazer a outra parte da residência, que é aproveitar a cidade e curtir o que ela pode nos oferecer, seja pro trabalho, seja pra vida. Tentamos ir ao Museo Galileo, mas a terça-feira é o único dia que ele fecha às 13h. Resultado: “fomos obrigados” a ir à Galleria degli Uffizi, e deixar o Galileo pra amanhã. Eu já tinha ido à Uffizi na primeira vez que vim aqui, mas lembrava de muito pouco. Pra ser bem sincero, a memória mais vívida que tinha era a fila sem fim (demoramos horas pra entrar) e o monte de japonês com seus bentôs (uma marmita japa) almoçando e fazendo muito barulho nessa fila. Dessa vez, tinha muito menos japonês e praticamente não precisamos esperar na fila. Aliás, por falar nos meus ascendentes nipônicos, é incrível como os museus mudaram de cara hoje em dia. Nessa época da minha primeira visita aqui, o irritante era aguentar os grupos de japoneses que paravam a cada obra – sem ter ideia do que era, ou de quem era – pra tirarem, um a um, fotos ao lado dos quadros. Hoje em dia, os ocidentais também “japonesaram”! As pessoas não têm mais nenhuma relação com a obra, gastam todo o seu tempo fotografando os quadros ao invés de observá-los, senti-los. Que triste isso! E irritante! Vou começar a escolher museu pra visitar pelas normas de não fotografar! Os que permitirem, vou evitar. Que saco!

Bom, queixas à parte, a Uffizi é incrível. Um acervo enorme de renascentistas e outros artistas, em especial, italianos. E foi uma visita particularmente especial, porque foi o primeiro museu que você visitou um pouco maior, entendendo o que é. Antes disso, até que já tinha um currículo interessante, tipo o Orsay, em Paris (não nessa ida, mas em 2013), o Museu Arqueológico de Atenas, o Malba, em Buenos Aires, mas todos ainda muito pequena e sem entender ou curtir o suficiente. Desta vez, ao mesmo tempo em que eu estava ansioso, estava também um pouco temeroso de você se encher rápido e não deixar a gente aproveitar também. Mas não!!! Além de assistir a teatro adulto, você também já é uma bela apreciadora de museus, meu amor! Passou quase que o tempo inteiro (umas 2 horas e meia) no chão, caminhando, e olhava as obras com atenção, com muita sensibilidade, comentava, incrível! Quanto orgulho tenho de você…

Bom, depois de visitarmos o acervo, não conseguimos ver toda a exposição temporária, porque estava perto da hora de irmos pro segundo tempo do trabalho com a France, e antes disso ainda te dar comida!

E assim o fizemos. Chegamos na France e fomos pro trabalho com o texto, parte da pesquisa dela que ainda não tínhamos trabalhado. E é fantástico. Fiquei pensando como esse trabalho é complementar ao da Babaya, que estamos acostumados a fazer. E que maravilha se pudermos ter o acompanhamento das duas ao longo do processo, cada uma abordando pelo seu lado, pela sua pegada!

Começamos com a cena 2, do Próspero com a Miranda, mais especificamente a primeira fala da Miranda. A Francesca tem uma abordagem muito particular do texto, calcada na relação da sintaxe da palavra, muito mais do que a expressão. Como ela mesmo diz, é um trabalho de arqueologia do texto. Um dos principais pontos que foram focados foi tirar o cantado da fala, vício, segundo a France, tanto do ator brasileiro, quanto do italiano.

Foi incrível a quantidade de questões filosóficas, científicas, antropológicas, metafísicas e de tantas outras naturezas que a Francesca levantou em uma única fala! Houve um crescimento muito evidente no texto da Paulinha, até porque não tínhamos trabalhado o texto com mais cuidado até agora, os ensaios estavam muito voltados para a atriz e a encenação. Só por esse pequeno exercício que fizemos, fiquei morrendo de vontade de ver a Paulinha voltar à cena com o Maurice.

Foi um trabalho muito exaustivo, apesar de estarmos os três sentados, porque a intensidade da condução era impressionante.

Ainda pegamos um pouco o diálogo entre Miranda e Ferdinand, e depois a Francesca ainda deu algumas indicações pra Paulinha em como trabalhar naquela dinâmica do Soleil do ponto, em que eu fico de fora da cena lendo, e ela em cena repetindo. Ao ver os vídeos ontem, a France observou algumas coisas que quis trabalhar hoje.

E assim terminamos o nosso primeiro dia de trabalho prático em Firenze (fora a oficina, claro). Ao final, mais uma bela pizza, e o gelato de lei, já que estamos religiosamente tomando um por dia! Você, infelizmente, estava dormindo na hora do sorvete e não aproveitou, queridinha!

E assim seguimos nossos dias italianos. Tem sido um esquema diferente, já que ao invés do descanso parisiense “enfiados na toca” estamos saindo um pouco mais e aproveitando o tempo livre pra turistar um pouco. Além de ser extremamente prazeroso, é também uma quebra de rotina que está fazendo muito bem pra nós, em especial pra você, Bela.

A domani!

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3 comentários sobre “24: Arqueologia do texto

  1. Entendo perfeitamente a tua irritação, Nando. Senti a mesma coisa aqui na exposição do Ron Muech: as pessoas estão mais interessadas em fotografar e “postar” do que em sentir e observar. E além disso atrapalham as pessoas que querem ver e tem que se desviar das máquinas. Enfim!!
    Que intensidade de vivências e aprendizagens vocês estão tendo, não é?
    Beijos

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    1. Ê, Tia, que legal o teu comentário por aqui!!! Vi o Mueck em Buenos Aires, sem fila e proibido tirar fotos, imagino que bem melhor do que essa gente que só se relaciona com o mundo pelo LCD! De fato, está sendo muito transformador, como artistas e como pessoas. E, com o tempo, vamos descobrir o que (e como) tá afetando a Bela também. Vê se continua comentando! Beijo!

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  2. Meu bem, Beloca já vai nos mostrar a diferença entre cubismo e renascentismo, já já!
    Poxa Yaima, já estou começando a ter aquela invejinha boa desse contato com a Madame la Monica…
    As vezes fico com receio de comentar alguma coisa por não compreender o todo. Mas a leitura dos “capítulos” aqui do blog é fascinante mesmo.
    Ah e concordo demais tb com esse lance de fotografar no museu. Um dia desses publiquei no facebook (coisa rara né, eu sei! hahahahah), que “as tecnologias despoetizam a vida ultimamente”, porque passei por uma situação dessas vendo uma exposição no Rio. Uó.

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