29: Os pilares e a ponte

E fevereiro acabou, filhota! Dos dois meses e meio de residência, dois meses se foram e só sobrou “um troquinho” pra finalizar. Confesso que queria mais… Pelo menos as saudades serão devidamente matadas logo.

Hoje, domingão, acordamos todos tarde, cansados do trabalho durante a semana. Acabamos inclusive pedindo um adiamento de uma hora pra Francesca do início do trabalho, que depois ela admitiu que também adorou. Afinal, a France trabalha como uma louca, é incrível! Todos os dias que tivemos aqui, ela tinha saído de um ensaio ou reunião antes de começar com a gente, e saiu para outro ensaio ou reunião ao terminar o nosso trabalho!

Seguimos a nossa rotina: Começamos com a aula, depois seguimos para a música. Além das duas que já estamos trabalhando – Sorte la Luna e Attenti al Lupo – a Francesca também retomou Mi affacio alla finestra, que ontem começou a trabalhar. De fato, muito bonita, e a Paulinha avançando a passos largos!

Depois, foi a vez de pegar texto. A Francesca sugeriu um texto d’Os Doze Trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato. Fiquei muito feliz quando, há uns dois ou três dias atrás, vi esse livro lá por cima – que a France tinha mostrado pra tua mãe – e você o tempo inteiro folheando, “contando” a história, etc, porque, junto com O Menino Maluquinho, acho que esse era o meu livro favorito quando moleque! Eu tinha quase todos os livros do Monteiro Lobato, mas esse era o meu preferido. Agora, mais uma coincidência surge nesse processo tão ligado a infância, a memória e a identidade!

Trabalhamos em cima da introdução, que fala sobre quem foi o Hércules. Como você não queria deixar a sua mãe trabalhar, criamos uma estratégia que foi deixá-la sentada numa poltrona num lado da sala, e teoricamente nós três (eu, você e a France) iríamos sentar no sofá, no outro extremo, seríamos a plateia. No entanto, depois de criarmos toda essa estrutura, assim que a tua mãe começou a fazer a leitura, você foi pra mesa assistir Frozen no iPad. Paciência… Aliás, agora você raramente canta “Lerigôu”, resolveu mudar pra versão em português, então canta: “Biritôu, biritô-ôu!” (pros não iniciados, leia-se “livre estou”), e por mais que a gente insista na letra certa, você segue cantando assim e, pior, nos dá bronca porque o jeito certo é biritando. Como quem manda nessa família é você, não temos nada a fazer…

De todos os trabalhos de texto até aqui, esse, pra mim, foi o mais esclarecedor! Além de, a cada sessão, os conceitos ficarem mais claros, a Francesca soltou uma imagem que parece que fechou o meu quebra-cabeça: “as palavras têm de ser os pilares, e o pensamento tem que ser a ponte”. Ou seja, o que é comum vermos são os atores encherem as palavras de firulas – é onde entra o cantado do brasileiro – pra tentar enfiar o sentido à força na cabeça do espectador. Ou seja, tentar usar a palavra como ponte, como caminho. O que acontece é que nos envolvemos com a melodia e esquecemos do sentido. Se a palavra for mais concreta, dando suporte para o pensamento passear por entre elas, aí a comunicação se estabelece. E, pra isso, é preciso em primeiro lugar que o ator tenha domínio do que está falando, em termos de sentido. Não sei se com essa descrição consegui deixar claro, mas garanto que pra mim a Gestalt fechou!

Bom, amanhã a France segue para Napoli e nós, pra Siena. Ela vai trabalhar, e nós vamos tirar dois dias de folga. E na quarta voltamos para trabalharmos o último dia! Tá acabando…

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4 comentários sobre “29: Os pilares e a ponte

  1. Fala, Brow!!! Ufa, passei os últimos dois dias a espera de novas publicações, camarada!!! Bom saber que vocês também estão descansando e curtindo a viagem. Cara a descrição está ótima, mas ainda bem que você está trazendo esta ‘gestalt’ pra cá, porque acho que, afinal, usando o mesmo termo, este é o grande ‘pilar’ que temos tentado tanto construir, não é? Valeu, Fê!!

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  2. Achei tão legal você ter dito que um de seus livros preferidos era Os Trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato. Ele sempre foi o meu preferido de todos os livros de infância. Então, eu acredito que provavelmente li esse livro para você algumas vezes, mas não me lembro disso.

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